Da morte por congestão à IA
Todas as infâncias carregam grandes medos: armários recheados de monstros, cobras debaixo da cama, o escuro carregado de desconhecimento. No meu caso era a morte por congestão que me acompanhava nas horas pós-refeição, em especial nas férias. Fossem estas férias à beira-mar ou junto ao rio Ave, o meu pai, que não sabia nadar, lembrava-me que tinha acabado de comer e só poderia tomar banho após o cumprimento rigoroso de três horas sem ir à água. Agora acredito que seria o momento em que ele poderia estar descansado, pois o medo tomava conta das minhas ações e nem os pés era eu capaz de molhar. A contagem das horas para poder ir ao banho de mar foi motivação suficiente para aprender a ver as horas nos mais diversos relógios, de pulso de um qualquer adulto, de bolso do meu avô ou da torre da igreja. Alberto Caguinha, pedreiro e vizinho, foi encontrado morto no rio Ave a boiar logo após a hora de almoço, teria eu entre 6 e 8 anos, esta era a prova irrefutável da perigosidade do ban...