Da Identidade Escolar à Ação Educativa

O papel da escola ultrapassa em muito a mera função de transmissora de conhecimentos. Por isso mesmo, tem uma responsabilidade muito maior de desenvolvimento do meio local, quer através da transmissão da cultura do território em que se insere, quer da adaptação das demandas nacionais e internacionais às necessidades locais. É desta lógica local para a global, e vice-versa, que perdemos a identidade que nos define e valoriza.

A escola, a par com a comunicação social, é um dos dois principais meios de transmissão da reflexividade científica, assim como dos valores sociais de uma sociedade moderna. Esta reflexividade e estes valores estão, então, condicionados pela instituição onde se desenvolvem e pela perceção dos peritos que a divulgam.

A escola é, então, uma organização que baseia a sua ação na confiança. As famílias mantêm a crença de que a escola as ajudará a garantir um futuro melhor para os seus descendentes, até nos períodos de grandes dificuldades financeiras e económicas o investimento na educação é uma prioridade. A valorização de uma carreira académica longa não pode ser de apenas muitos anos na escola, mas de aquisição de competências que capacitem os cidadãos para uma sociedade ativa e reflexiva.

A escola tem a capacidade de influenciar uma sociedade, que por sua vez influência a escola, quer pela ação dos professores, quer pelas políticas educativas. A este fator aliamos a propagação da necessidade de correspondermos aos padrões europeus de educação, com os quais somos bombardeados nos mais diversos artigos de opinião publicados nos media, ou pelos estudos descontextualizados que apontam para o nosso atraso neste âmbito, sem, no entanto, se verificar uma verdadeira preocupação de se fazer a correspondência com o "retrato" do território. Neste contexto, a autonomia dos estabelecimentos de ensino e do exercício da docência é pura retórica, pois é pretexto para estas avaliações que têm como último reduto a responsabilização das escolas e professores, sem que o devido enquadramento local esteja garantido.

Naturalmente, a necessidade de corresponder às exigências do poder nacional e mesmo internacional não pode ser conseguida pela anulação da identificação, mas pelo reforço do local. Podemos constatar que o desenvolvimento económico e social, assim como o demográfico e geográfico, podem ser tão díspares que a concretização de um projeto educativo não faz sentido sem que este seja contextualizado com as vivências dos atores escolares, tomando assim tantas formas quanto as escolas públicas existentes. Verificamos, contudo, a supremacia da lógica global sobre a local. Todavia, como estes discursos só assentam no enquadramento local por meio da ação dos atores educativos, a lógica de ação local tem um papel importante na prática educativa.

Assim, os atores que são os principais agentes da ação local, os professores, mantêm o pressuposto de partida de avaliar para regular as características individuais de cada um para promover uma aprendizagem adaptada e única. No entanto, avalia-se para aferir da quantidade de conhecimentos que o processo de ensino produziu. E esquece-se, assim, a influência que a avaliação pode gerar no processo de aprendizagem, no qual se incluem avaliado e avaliador. Neste pressuposto fica, também, escondido o carácter seletivo da avaliação com base no produto. Com o simples objetivo de testar os conhecimentos acumulados, cria-se um ambiente de grande tensão emocional que, na verdade, apenas testa as resistências e a resiliência dos indivíduos face a um obstáculo. A avaliação, que devia estar ao serviço de avaliador e avaliado, para que reflitam as consequências desse ato nas suas práticas, acaba por surgir como um instrumento de regulação externa, para adaptar a pessoa em formação ao sistema de formação e para fomentar o carácter competitivo entre os avaliados, implicando os avaliadores.

Esta descaraterização dos resultados muito tem contribuído para a abstração do meio local perante a sua importância na contextualização que alicerce os princípios da ação educativa na busca das competências que assegurem uma verdadeira visão global.

Publicado no Correio do Minho a 7 de dezembro de 2022

Mensagens populares