Altercações da Mulher e da Rã
Da natureza à natureza humana não pretendo encontrar razões, mas talvez encontre contradições e reflexões.
Descobri recentemente que a Rã macho é a única capaz de coaxar para chamar as fêmeas e assim cumprir com os seus desígnios de reprodução. A descoberta foi na verdade de que só os machos coaxam, mas já na minha infância me deliciava com estas cantorias anfíbias. Nesses tempos em que não me questionava sobre a motivação do canto, também me alegrava ouvir a música “The Frog Chorus & Paul McCartney - We All Stand Together”, pela sua simbiose entre o mundo animal e a música. Ainda nos dias de hoje é uma música que me agrada aos tímpanos, no entanto penso que é mais por me arrastar para um passado em que corria pelos charcos, e eram tantos, campos e margens do rio onde era frequente encontrar toda a espécie de bichos. Neste sentimento prazeroso de regresso ao passado não é o passado, é a possibilidade de conviver com um mundo natural que agora se esgotou nas inúmeras atividades humanas de alteração dos habitats.
O encanto pelos bichos é tão natural na infância que é comum assistirmos a uma criança a ser guardiã de um carreiro de formigas. Não sei quando a natureza perde esses poderes da sedução, se é quando colocamos os manuais a tapar as janelas ou os ecrãs. Talvez possa ser quando viajamos de carro, que mais é uma redoma, e nos deslocamos a uma velocidade muito superior à capacidade dos nossos sentidos captarem o ambiente envolvente e nos mantemos isolados dos perigosos insetos. Facto é que são poucos os adultos que param no cantar do pássaro ou no voo da borboleta.
Este distanciamento é tão profundo que já não reconhecemos as flores quando têm uma abelha com o receio de que esta nos possa contaminar com o seu veneno. Esquecemos que uma uva verde espremida é o antidoto adequado, assim me fizeram crer de cada vez que a ferroada me era destinada.
Regressando ao coaxar, este é de tal modo cativante que captou a atenção da Mulher. Atenção esta que não lhe permitiu mais o silêncio necessário para o repouso noturno. Por muito argumentativa que possa ser a Mulher, a Rã persiste em cumprir com um destino natural proveniente dos deuses ou da sua teimosia e coaxa numa liberdade que não respeita os limites dos decibéis noturnos. Rã que não percebe nada de música, poderia cantar em coro “We All Stand Together” com a Mulher se esta assim soubesse cantar, menos ainda sabe de leis da civilidade e sã convivência com a vizinhança.
Não quero defender a Rã na sua ignorância, nem a Mulher na sua obstinação ao silêncio. Até porque a Rã cala-se ao sentir a proximidade da Mulher e o por-do-Sol a que a mulher assiste no Instagram, que é o fenómeno da natureza que mais aprecia, não coaxa. Assim, as duas coabitam forçadamente além das suas vontades e qualquer altercação está impregnada de razões muito próprias e imbatíveis.
Se pelo menos a Mulher desejasse ser guardiã da Rã, ou a Rã coaxasse em silêncio.