Da morte por congestão à IA

 

Todas as infâncias carregam grandes medos: armários recheados de monstros, cobras debaixo da cama, o escuro carregado de desconhecimento. No meu caso era a morte por congestão que me acompanhava nas horas pós-refeição, em especial nas férias. Fossem estas férias à beira-mar ou junto ao rio Ave, o meu pai, que não sabia nadar, lembrava-me que tinha acabado de comer e só poderia tomar banho após o cumprimento rigoroso de três horas sem ir à água. Agora acredito que seria o momento em que ele poderia estar descansado, pois o medo tomava conta das minhas ações e nem os pés era eu capaz de molhar. A contagem das horas para poder ir ao banho de mar foi motivação suficiente para aprender a ver as horas nos mais diversos relógios, de pulso de um qualquer adulto, de bolso do meu avô ou da torre da igreja.

Alberto Caguinha, pedreiro e vizinho, foi encontrado morto no rio Ave a boiar logo após a hora de almoço, teria eu entre 6 e 8 anos, esta era a prova irrefutável da perigosidade do banho sem que se respeitassem as horas de intervalo para a realização da digestão dos alimentos de uma bela refeição ou mesmo de um lanche. Tenho a recordação da notícia da sua morte como se se tratasse da divulgação de um dado científico, e naquele momento, comprovado por uma equipa de estudiosos capazes de analisar até a quantidade de alimentos ainda por digerir. Anos mais tarde, seria eu adolescente, já sabia nadar, tive conhecimento de que Alberto não só consumia uma quantidade descomunal de álcool durante as refeições, como fora delas, e teria sido o efeito deste que provocou a sua queda ao rio. Ao estado de embriaguez juntava-se o facto de não saber nadar. Nesta altura o medo da congestão já não era tão intenso como na infância e foi definitivamente ultrapassado. Conhecer a razão do medo é o primeiro passo para este ser dominado ou até ultrapassado.

As escolas também apresentam medos em relação à inteligência artificial, como as crianças em relação ao desconhecido. Sabemos que podem não estar devidamente racionalizados e, eventualmente, será mais um avanço tecnológico a que teremos de nos adaptar, como outrora a própria escrita o foi, mas também são os medos que nos orientam em caminhos desconhecidos e nos obrigam a cimentar a confiança necessária para novos desafios. E os medos são necessários. É prudente uma criança não entrar no mar sem vigilância ou afastar-se para caminhos desconhecidos sem supervisão, também os passos a dar na inteligência artificial devem ser dados no medo da velocidade a que a informação é processada e transformada, no medo da ditadura algorítmica da qual desconhecemos a génese ou no medo de tudo ser apresentado com uma perfeição que não nos permite sair da bolha em que fomos colocados. A falta de aleatoriedade na busca do conhecimento e a redução da possibilidade de errar não são mais do que a busca imperfeita da perfeição.

Além da curiosidade, só a incerteza é capaz de nos colocar em situação de busca pelo conhecimento, obrigando-nos a investir nas competências necessárias não só de pesquisa e recolha de informação, como de aceitar a derrota através da assunção de que errámos não na busca, mas na conclusão. Exatamente esta incerteza, que pode ser muito reduzida por um tutor de inteligência artificial, é responsável pelo espanto da descoberta, e um aluno que não se espante dificilmente descobre o prazer de aprender.

A Escola, como uma criança, deve ser cautelosa até dominar o medo, mas sem que isso a impeça de arriscar e espantar-se.

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