Porque temos saudades do futuro?


O cheiro da terra molhada é dos revisionamentos infantis do imaginário coletivo mais comuns. É a paisagem olfativa que nos faz parar para sentir o passado a invadir todas as memórias difusas da infância distante, mas que sabemos feliz. Há uma paragem cinematográfica na nossa mente, um retrato, um daqueles momentos Manuel de Oliveira em que tudo demora o tempo suficiente para parecer estático.

Convém ser mais preciso e esclarecer que esta terra molhada é a primeira terra molhada. É a terra molhada da primeira gota de chuva e que só se manifesta após um longo período de seca. Só quando nada faz prever a chuva é que a desejamos. Toda a aridez é libertada pela precipitação da água que se ausentou ao ponto de se sentir a sua ausência. Não é chuva, é a primeira chuva responsável por nos relembrar da sua essência, da sua relevância na nossa permanência na terra.

Talvez porque nos falte terra no nosso quotidiano, ou porque não andamos descalços sobre ela e nos sujemos com todas as suas partículas de nos sujar.

Calcamos o chão com partes de anteriores animais e rodamos sobre o mesmo à velocidade do consumo dos fósseis de outrora. Já nada nos faz parar, nem o poderoso exército de formigas que freneticamente acelera a sua existência na busca do seu propósito. Unicamente a petricor conquista a nossa inércia, amarrando-nos aquele exato momento em que primordialmente tivemos o mesmo prazer de estancar, de sentir o tempo a cair sobre o chão, de ouvir a chuva em cascata. Sim, porque a chuva deve ter a dimensão exata em cada gota que salpique a terra com outras gotículas, não pode ser demasiado intensa e todo o chão se inunde num momento incapaz de libertar todas as partículas que desejam a liberdade, nem demasiado escassa que não as liberte. A exatidão das circunstâncias é milimétrica, todas as medidas são calculas numa proporcionalidade das substâncias quase divinal.

Esta sensação de saudade nada se compara com o momento vivido no passado, mas com o desejo de reviver interminavelmente esse episódio no futuro. A possibilidade de ocorrência é tão rara quanto surpreendente em cada manifestação. Não é possível pela simples observação ou pela previsão meteorológica antecipar a sensação olfativa que desencadeia esta saudade do futuro, este desejo de no próximo dia poder revisitar as sensações do passado.

É almejar amanhã aquilo que gostamos ontem.

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