A liberdade do aluno perfeito

    Mensurável, obviamente mensurável!

    É neste conceito capital que conseguimos identificar o aluno perfeito. Entre os resultados internos e externos, com intermináveis momentos de avaliação que conseguimos apurar a mais refinada perfeição. Garantimos assim a certeza dos conhecimentos matemáticos, literários, científicos, artísticos e humanos, nada escapa ao crivo da avaliação. O aluno só tem que garantir que é detentor dos conhecimentos adequados às questões colocadas no momento exato do teste, questão de aula ou quizz.

    Sentado, obviamente sentado!

    Todos sabemos que a aprendizagem carece da inércia do corpo, qualquer movimento pode chocalhar o conhecimento e este rapidamente se dissipa na mente para se esconder no mais recôndito neurónio, alojando-se entre o “jamais me lembrarei” e o “para que é que serve”.

    Calado, obviamente calado!

    Também o ruído pode provocar a incapacidade crónica da aprendizagem. Basta observar os espaços inúteis de recreio onde tudo acontece num caos, nada planificado, previsível ou orientado. Qualquer potencial aprendizagem pode ocorrer no espaço errado ou no aluno errado, não ficando assim enraizada para que possa ser devidamente medida.

    Este aluno, ainda almejado em alguns espaços escolares, está associado ao “aluno”, perfeitamente idealizado. A organização planificada, com uma orientação perfeita para o quadro e professor, com os ouvidos devidamente orientados para uma escuta atenta, o cumprimento da tarefa exata, no momento exato em que é solicitada a sua concretização. Tudo requisitos essências para que o “aluno” se revele na sua perfeição.

    Natural é também encontrarmos esta concordância da perfeição no ambiente familiar. O aluno/filho com as notas perfeitas, sem qualquer reparo dos professores pois é muito sossegado e respeitoso, sempre fazendo os trabalhos de casa. 

    E o quadro de excelência, obviamente no quadro de excelência.

    Ainda assim, não é este o “aluno” que desejamos quando este encontra os desafios do mercado de trabalho ou mesmo do ensino superior e profissionalizante. Nem quando se solicita uma cidadania ativa e participativa.

    O aluno perfeito é uma construção socio-escolar que despreza a construção do individuo como um projeto individual de crescimento socio-emocional além das competências técnico-académicas. Ainda que todos tenhamos expetativas e desenhos da qualidade desejada, não a podemos projetar em outros que buscam as mesmas definições.

  O aluno perfeito é aquele que se constrói em todos os erros, em todas as falhas e se torna imperfeitamente belo no seu desenvolvimento único, pessoal e intransmissível.

    Sermos livres na nossa perfeição é algo utópico, na dos outros é impossível.

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