O Fim dos Dias do “Professor Espetáculo”
A prática
docente foi durante décadas, se não séculos, associada à capacidade do mestre
em ensinar os seus aprendizes na arte dos conhecimentos por si dominados. O
domínio da oratória esteve sempre articulado tanto com a sapiência como com a
excelência da docência. Na verdade, uma aula era um espetáculo de conhecimento
que brilhava nas palavras de uma mente recheada de saberes ao alcance de muito
poucos. Este professor, não raras vezes, dispersava na vaidade da sua sabedoria
e saltava de assunto em assunto com tal destreza que deixava os seus alunos
ainda mais atónitos com tal capacidade de em si conter um mundo enciclopédico e
percorrer todas as páginas a cada frase mais ou menos erudita e com mais ou
menos citações de autores ou textos clássicos, em latim ou grego.
Alguns destes professores maravilharam-me com a confiança de se exporem e captarem a atenção da plateia, correndo o risco de, sozinhos, continuarem a aula em que o foco de si os ofuscava na luminosidade do intelecto, não lhes permitindo ver além da secretária, mas do lado do espectador eu sorvia aquelas aulas como uma efeméride artística. Esta é a imagem idílica que mantenho e que, de uma ou outra forma, marcou um percurso escolar muito vinculado a estas caraterísticas. Tempos em que a ciência estava disponível no manual ou no professor. Procurava em leituras aleatórias e nas artes discursivas, que atentamente escutava, poder alcançar aquela sabedoria. Almejava a capacidade de enfrentar o desconhecido com a bagagem adquirida, como se conhecer o passado histórico, os fenómenos científicos ou as obras literárias me permitissem adivinhar o futuro e antecipar a felicidade.
No entanto, quando em retrospetiva busco estes professores, não encontro aquele que se isolou na oratória, mas o que procurou a dialética entre a ciência e a linguagem do aluno, aquele que desceu do palco e abandonou o espetáculo para entrar em práticas dialógicas construindo reflexões assentes em ideias, opiniões ou sentimentos. Foi também aquele que me “cravou” cigarros e, entre uma e outra “passa”, nos questionávamos porque fumávamos, quando ambos estávamos conscientes das consequências e do prazer que nos proporcionava e não se prolongava além de meio cigarro, ou aquele que conquistou o “25 de Abril” de arma em punho nas ruas de Lisboa e contava histórias militares com a mágoa de nunca alcançarmos “Abril”, ou ainda aquele outro que da matemática fazia um jogo e a meio de cada partida exibia o cartão amarelo ou até vermelho pelo nosso comportamento ou desempenho. Muitos outros ficaram gravados nas minhas memórias e dos meus companheiros, e a cada jantar de ex-colegas de escola surgem as memórias entre saudosas gargalhadas. Cada um, na sua singularidade, conseguiu orientar uns e outros alunos não pelos conhecimentos, mas pelas aprendizagens que foram promovendo.
Se agora percebo as dificuldades que os meus professores tiveram em captar a atenção dos seus alunos, e a seu favor havia o argumento de dominarem áreas que nós nem sonhávamos existir, também reconheço que não era o mais erudito que tinha mais sucesso. Não era o “Professor Espetáculo”, apesar de garantir sempre algum sucesso, que nos transformava através das nossas curiosidades em pequenos investigadores de conhecimento. Ainda menos hoje será este professor capaz de movimentar esta geração de alunos que carregam bibliotecas inteiras nos bolsos. Terá de ser o “Professor Espetacular” a agarrar e transformar os alunos, além do possível alcance da nossa imaginação de um qualquer futuro, aquele que domina a capacidade da adaptabilidade e das práticas dialógicas.
Alguns destes professores maravilharam-me com a confiança de se exporem e captarem a atenção da plateia, correndo o risco de, sozinhos, continuarem a aula em que o foco de si os ofuscava na luminosidade do intelecto, não lhes permitindo ver além da secretária, mas do lado do espectador eu sorvia aquelas aulas como uma efeméride artística. Esta é a imagem idílica que mantenho e que, de uma ou outra forma, marcou um percurso escolar muito vinculado a estas caraterísticas. Tempos em que a ciência estava disponível no manual ou no professor. Procurava em leituras aleatórias e nas artes discursivas, que atentamente escutava, poder alcançar aquela sabedoria. Almejava a capacidade de enfrentar o desconhecido com a bagagem adquirida, como se conhecer o passado histórico, os fenómenos científicos ou as obras literárias me permitissem adivinhar o futuro e antecipar a felicidade.
No entanto, quando em retrospetiva busco estes professores, não encontro aquele que se isolou na oratória, mas o que procurou a dialética entre a ciência e a linguagem do aluno, aquele que desceu do palco e abandonou o espetáculo para entrar em práticas dialógicas construindo reflexões assentes em ideias, opiniões ou sentimentos. Foi também aquele que me “cravou” cigarros e, entre uma e outra “passa”, nos questionávamos porque fumávamos, quando ambos estávamos conscientes das consequências e do prazer que nos proporcionava e não se prolongava além de meio cigarro, ou aquele que conquistou o “25 de Abril” de arma em punho nas ruas de Lisboa e contava histórias militares com a mágoa de nunca alcançarmos “Abril”, ou ainda aquele outro que da matemática fazia um jogo e a meio de cada partida exibia o cartão amarelo ou até vermelho pelo nosso comportamento ou desempenho. Muitos outros ficaram gravados nas minhas memórias e dos meus companheiros, e a cada jantar de ex-colegas de escola surgem as memórias entre saudosas gargalhadas. Cada um, na sua singularidade, conseguiu orientar uns e outros alunos não pelos conhecimentos, mas pelas aprendizagens que foram promovendo.
Se agora percebo as dificuldades que os meus professores tiveram em captar a atenção dos seus alunos, e a seu favor havia o argumento de dominarem áreas que nós nem sonhávamos existir, também reconheço que não era o mais erudito que tinha mais sucesso. Não era o “Professor Espetáculo”, apesar de garantir sempre algum sucesso, que nos transformava através das nossas curiosidades em pequenos investigadores de conhecimento. Ainda menos hoje será este professor capaz de movimentar esta geração de alunos que carregam bibliotecas inteiras nos bolsos. Terá de ser o “Professor Espetacular” a agarrar e transformar os alunos, além do possível alcance da nossa imaginação de um qualquer futuro, aquele que domina a capacidade da adaptabilidade e das práticas dialógicas.
Publicado no Correio do Minho a 7 de março de 2024