Egoísmo de mim e do outro
Primeiro quero clarificar que não
é por qualquer desejo de provocar dano no outro nem por incapacidade de
empatia, é mesmo por impossibilidade de dois corpos ocuparem o mesmo
espaço que o egoísmo se manifesta. Dois olhos só têm um olhar diferente
quando pertencem a dois corpos desiguais. Do lugar de mim não cabe um outro e
desse mesmo lugar não caibo eu.
De alguma forma posso estar a
passar a ideia de que seremos superiormente egoístas por não sermos capazes de
nos colocarmos no lugar do outro, mas na verdade somos simplesmente incapazes
de assumir outro ser que não nós próprios. Nem os atores saem de si para serem
outros, são outros dentro de si e o melhor ator será aquele que mais outros
tiver. Qualquer personagem está indexado à pessoa que o cria, seja ele
escritor, pintor, argumentista ou escultor, mas fica condicionado à
personificação de quem o recria. Recriar é mesmo isto, criar de novo e com os
mesmos átomos construir o mesmo semelhante e impossivelmente igual.
Se nós fossemos o outro e daí
tivéssemos o seu olhar e toda a visão de defesa dos seus interesses, isso sim
seria a permanência do egoísmo, agora no lugar do outro. Contrariar este estado
e não sairmos de nós, é não termos necessidade de sermos mais do que somos para
nos inteirarmos de algo que nos transcende, que de nós é afastado. Se defendo o
outro porque me é igual é um mesmo egoísmo porque me estou a defender a mim,
agora noutra “pele”.
O altruísmo surge quando de um ponto distante somos capazes de tomarmos posse das dores, alegrias, angústias e conquistas como se estivéssemos no ponto que observamos. É sermos díspares o suficiente para não encontrarmos pontes e mesmo assim estarmos ligados, permitirmos que o outro nos toque sem que a distância seja encurtada. Não há ato mais empático que a permissão da dor alheia nos provocar o desconforto de um outro sofrimento que não o nosso.
Quando tiramos uma fotografia às
cores inusitadas de um pós por do sol, temos um foco em toda a ilusão que nos
cria a luz tranquila do longínquo, no entanto, não percebemos o frio ou o
desconforto da posterior escuridão. Não temos qualquer inabilidade de imaginar
o minuto seguinte, mas o conforto da beleza daquele momento, juntamente com a
chauffage do carro, a areia onde estamos sentados com a manta, a varanda onde
bebemos um café quente ou o jardim onde repousamos o corpo, não nos deixa antecipar
fielmente algo que não queremos e naquele lusco fusco parece estar a uma
eternidade de nós.
Quando ouvimos o cantar do
rouxinol e só sobressai o nosso gosto pela música através do cantar da ave,
mesmo que esta esteja presa na gaiola e o voo já não seja almejado nem nos
sonhos de uma prisão dourada, mantemos o egocentrismo dos nossos desejos como
se fossemos nós os cantores e fossemos galardoados pelos aplausos do público.
É na distância de nós, e não na
proximidade, que podemos ser plenos de altruísmo. É na distância de dois corpos
que podemos revelar-nos próximos, amar aquilo que gostamos é uma tautologia,
uma hipérbole de sentimentos. O egoísmo está em nós e no outro, sem que de nós e do outro se ausente, quando o
centro não sai de nós e sobriamente vemos o centro no reflexo de nós em outro.