A Mediatização do Sucesso

No frenesim a que nos propomos tudo fazer a uma velocidade digital, sem tempo de reflexão e integração das ações na capacidade humana de agir, urge a apresentação de avaliações simplificadas com apresentações de leitura analítica e interpretativa numa única tabela, preferencialmente colorida e dinâmica.
                Nesta simples caraterização apresenta-se o ranking das escolas. Tendo este surgido no ano de 2001, por iniciativa do jornal “Público”, muito se tem falado sobre a importância destes dados, pelos movimentos associados a um mercado educativo liberal, ou da infidelidade do trabalho das escolas, pelos movimentos acoplados à defesa da importância da escola pública.
                A desvinculação do Ministério da Educação a estes resultados, que nunca se apresentou para além de uma parte interessada em manifestar a importância da escola pública, como se fosse o regulador somente do público, tem alicerçado o desprestigio da escola pública. Esta ausência de contributo para a discussão do papel do ranking das escolas não retirou importância a este, que todos os anos preenche as manchetes dos jornais ou os destaques dos canais noticiosos durante 24 horas. Passada esta primeira leva da argumentação da importância da escola pública e do sucesso das escolas privadas, nada mais há a acrescentar até ao próximo ano com novos resultados em tudo semelhantes aos anteriores. As escolas privadas no topo das classificações e um desproporcional resultado nas escolas públicas, refletindo as assimetrias entre o interior e o litoral ou o urbano e o rural.
                A simplificação do ranking tem alimentado a ideologia da maior qualidade do serviço educativo privado, ignorando todo o contexto associado à escolha do privado, capital social e económico das famílias. Realço aqui o esforço mais recente, do jornal “Público”, na análise dos resultados por capacidade das escolas na superação dos resultados por expetativa do contexto, ranking de superação. No entanto, este ainda aparece muito secundarizado pelo primeiro, por não ter a mesma atratividade capaz de fazer manchetes.
                O Ministério da Educação, ao ignorar a importância da mediatização destes resultados, tem cooperado na degradação da imagem da escola pública. Não proponho com isto que se entre numa competição entre público e privado, com o Ministério como defensor de uma das partes, mas que este se apresente como organismo com especialistas e comunicadores interventivos, quer na análise destes resultados enquanto produtores de pensamento crítico, quer dos efeitos por estes provocados. Sem esta intervenção as escolas continuarão reféns das manchetes com títulos gordos e coloridos para o qual todos seremos impelidos a olhar sem ler os restantes subtítulos e jamais um artigo completo.
                Inegável é a assimetria geográfica entre as escolas públicas sem qualquer discriminação positiva dos territórios desfavorecidos. O combate ao insucesso educativo no interior ou nas periferias rurais são deixadas à sorte das escolas, assim como as escolas urbanas de territórios perpetuadores de exclusão social, ou pelo menos de difíceis integrações sociais, nada mais contam do que com o esforço dos profissionais da educação.
                A inércia na resolução destes problemas, alocando recursos contextualizados com as necessidades, continuará a aprofundar o fosso do público e privado assim como as assimetrias dos territórios da escola pública.
                O poder da mediatização é tão grande que, mesmo com a geração mais qualificada de sempre, fruto do trabalho da escola pública, na sua maioria, estamos a cada ano a cavar uma tumba para onde empurramos a escola pública para que possa fenecer em paz.
Publicado no Correio do Minho a 22 de junho de 2023

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