Como morre um professor?
A primeira
questão é se um professor morre? Com isto não o quero equiparar a nenhuma
existência divina, até porque tenho uma fé inabalável, pelo menos até ao dia em
que viver a minha morte, de que as experiências espirituais não ultrapassam as
materiais. A vida espiritual será mais oculta e talvez por isso manifestar-se-á
a uma velocidade diferente, com outras âncoras e pontes que não só as materiais.
Já a vida material fica limitada à liberdade que as leis da gravidade ou da
inércia lhe permitem. A velocidade espiritual é tão irregular que pode numa
mesma ação atingir uma pessoa no fundo do bar sem para isso passar pela pessoa
que está de mão dada com o agente dessa ação, e eventualmente só sentirá essa ação
passadas horas, semanas, meses ou mesmo nunca.
Isto não quer
dizer que a espiritualidade seja algo de divino, atingível somente no lugar do
sagrado, é simplesmente percetível por outras sensibilidades que não somente o
tato ou um dos outros quatro.
Os professores
não são necessariamente dotados deste poder do atingir todos os alunos, mas
sabemos que alguns são capazes de produzir mais ações empáticas que outros. É
esta empatia que concebe um retorno afetivo criando uma ligação ao nível do
espiritual. Desconhecemos o processo que produz ligações tão fortes e por isso
mesmo não conseguimos explicar como replicar em todos os alunos.
Todas estas
ações preenchem o coração do professor, não porque lhe injete algum líquido ou
outra matéria gasosa, ou mesmo acrescente um outro ventrículo.
O coração é
obviamente em sentido figurativo o órgão das emoções, mesmo que todos saibamos
que não existe um único órgão emocional, e a existir seria o cérebro, ou o
intestino, ou a pele. Talvez seja mesmo o intestino, mas uma emoção intestinal
é demasiado visceral para ter o romantismo desejado, demasiado ruidosa ou
insalubre. Uma cólica não pode ser associada a uma intensidade emocional, já a
paragem cardíaca ou mesmo um desmaio transmite toda a falha material que o
espiritual almeja. Na verdade, quando alguém nos comove por ações ou palavras é
o intestino que para ou acelera para que mais tarde saibamos o quanto fomos
comovidos. Se fosse o coração a parar poderíamos ficar pela primeira emoção sem
reconhecermos uma outra mais intensa.
Conhecido é o
fenómeno de reconhecimento individual de seres adultos com enorme capacidade de
identificação de professores que contribuíram para o seu bem-estar social e
desenvolvimento pessoal.
Claro que me
podem dizer que nem todos os professores são possuidores desta capacidade transformadora.
Confesso que para isso não tenho nenhuma resposta, mas sim uma pergunta:
E esses são
professores?
Alguém que tem
a oportunidade de produzir sorrisos, construir curiosidades, ler desejos,
investigar emoções, descobrir verdades, calcular o presente e resolver futuros,
e de tudo isto escolher a inação, não é um professor!
É fácil
descobrir um professor pelo seu sorriso à entrada da escola. É algo maleável e
luminoso como as bolas de sabão, uma forma perfeita de resistência a todas as
agressões externas numa manifestação de beleza e preservação dos melhores
valores no seu interior.
Sabem como
rebenta uma bola de sabão?
A forte ligação
entre os átomos de Oxigénio e Hidrogénio, assim como entre as moléculas de H2O,
evaporam-se quebrando esta bela cadeia. Como quando se evaporam os sorrisos. A
bola de sabão, explode com a pressão interna salpicando tudo ao seu redor.
Assim será a
morte de um professor, salpicando todos aqueles que se encontram ou encontraram
ao seu redor, prolongando a sua existência em outros que absorveram os seus
sorrisos.
E assim…será
que morre?